Marca d'água

Tenho uma amiga que, casada com um francês, morou 14 anos em Paris. Hoje, de volta ao Brasil, conta que uma das coisas que mais estranhava na França era o fato de as mulheres serem sempre tratadas pelo sobrenome do marido, o que, invariavelmente, provocava confusão entre ela e a sogra, ambas com a mesma alcunha.

O Brasil, com o novo Código Civil, evoluiu muito nesse assunto. Hoje, marido pode usar sobrenome de mulher e vice-versa. Ou não, como diria Caetano.

O que me provoca uma profunda estranheza - apesar de não ter nada a ver com isso - são as brasileiras casadas com estrangeiros que fazem questão de adotar o sobrenome dos gringos, evidentemente, pra mostrar que se casaram com um deles, ou seja, venceram na selva dos imigrantes ilegais.

Me perdoem minhas amigas - tenho quase uma dezena nessa situação e sempre vêm aparecendo mais. Mas é uma atitude que beira ao ridículo. Elas diriam: "Mas as legislações estrangeiras exigem isso". Claro, isso é verdade, creio, que na maioria dos países. Mas é mesmo necessário adotar um novo sobrenome inclusive entre os velhos amigos brasileiros? Chegam ao absurdo de mudar o e-mail, aquele antigo, que todos conhecem, pra um novo, com o sobrenome do dono, mesmo que o anterior não tivesse o sobrenome de solteira.

Situações como essas me levam a concluir que esse papo de igualdade de tratamento (além da igualdade de direitos) nada mais é do que retórica moderninha. O que elas querem mesmo é ter uma marca d'água. Uma etiqueta de procedência. Ainda que alguns gringos europeus e norte-americanos sejam fabricados na China.


 

Niilismo de boteco

Dizem que o Brasil ganhou dois bronzes em Pequim. Eu já acho que perdeu duas pratas. Ou dois ouros.


 

Entre o sapato e a...

Dizem que esses sapatos são a última moda no Japão. Particularmente, acho que a última foto diz muto sobre quem usa.











Eis a campeã!)


 

Questiúnculas e quinquilharias

"O problema é quando a placa de trânsito diz pra virar a direita e o cara é pós-moderno: isso dá muito acidente... mas não erro de interpretação", por Marcos Lopes, sobre a liberdade de interpretação nas letras e artes.


 

CRÔNICA DE DOMINGO (5) - Se tudo tem que terminar assim*

Então, fica assim: é melhor não falarmos do passado. É torturar-se com armas próprias. Dois exércitos que se conhecem a fundo, que dominam todas as estratégias do inimigo - eu disse inimigo? Não quis dizer isso - e sempre antecipam o próximo passo. Dois exércitos que se aniquilariam por saber e sentir demais o outro.

Eu fiquei olhando você ir embora aquela sexta-feira, sabe? Até o carro desaparecer na esquina. (E eu, no carro, pensando: pra onde é que estamos indo mesmo?) A última sexta-feira em quase dez anos de sextas, sábados e segundas, compartilhando partículas próximas de ar. Rarefeito nos últimos tempos, mas ainda assim, ar que enchia os pulmões.

Onde estão meus óculos escuros? Precisei muito deles esses dias porque, você sabe, né, eu chorei e não queria que vissem.

Sabe o que eu vou fazer agora, agorinha, assim que acabar de falar com você? Vou jogar fora todos os congelados que você deixou na geladeira. Porque lasanha cheira você, empanados cheiram você, gelo até... é essa minha rinite, essa alergia que não sara, só pode ser.

Mas o que me incomoda mesmo é outra coisa. (A mim, também). Não me convenço de que uma tarde inútil de junho foi a última vez que te vi...

Lembra o verso de Bandeira? "A vida inteira que podia ter sido e que não foi"? Deixa pra lá. Se é melhor não falar do passado, que pelo menos seja até o fim.

(*) Há cinco anos, nesse exato minuto, nascia o blog Terceiro Caderno (havia um site rudimentar antes, que se perdeu por aí), com essa crônica. A qualidade caiu, mas os tempos também são outros. E tudo continua caminhando...


 

Balanço dos 30 anos (ou: Um Balançado Homem de 30) *

"Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível;" (Fernando Pessoa)


Acabo de me tornar um homem de 30, o que merece algumas considerações. A primeira é que ainda tenho, segundo a teoria de um amigo - um homem de 40 -, cinco anos pra sonhos, incertezas, devaneios e aquele certo incômodo de não sei o quê. É que, de acordo com a teoria desse amigo - lembrem-se, um homem de 40 -, aos 35 anos atingimos, os homens, a tal maturidade. Talvez, penso eu, o que Sartre chama de A Idade da Razão (parênteses pra lembrar que esse foi um livro lido aos 20 que muito me influenciou). Aos 35 anos, segundo o Normand, esse meu amigo, nós temos plena consciência do que era apenas sonho irrealizável e do que pode se constituir em um projeto de vida decente. Mas hoje não, só aos 35 anos.

Um homem de 30, em pleno século XXI, pode se gabar de ter vivido apenas um terço da vida ou pouco mais que isso, ao se verificar a expectativa de vida média nacional - e se for parcimonioso no seu dia-a-dia. Graças aos avanços da ciência, um homem de 30 não é mais um homem de meia idade.

Um homem de 30 anos já é um profissional, seja lá qual for a profissão que tenha escolhido - ou o contrário. Mas um bom homem de 30 ainda não se acomodou. Um bom homem de 30 ainda tem cinco anos pra, por exemplo, deixar o jornalismo e se tornar um... um o quê mesmo?

Um homem de 30 numa cidade de 70. Um homem de 70 numa cidade de 110?

Pra um birigüiense de 30, que não é lá nenhum Gianecchini, já tive mais mulheres do que mereço. Mas menos do que gostaria.

30 anos. Pras mulheres, balzaquianas. Pros homens... ficamos sem definição?

Diga 33, pede o médico. Não, hoje só digo 30. Trinta e três só depois de amanhã.

Trinta e cinco anos, a idade da razão. Mas poderá um homem de 30 já ter vivido a melhor fase da vida? Desconfio que sim, mas torço que não. Talvez seja possível ter vivido a melhor e a pior fases. E uma média disso, seria suportável? É provável que sim, especialmente com a ajuda das fluoxetinas da vida.

Quero aprender inglês, francês, italiano, espanhol. Violão, teclado - piano seria pedir demais -, guitarra, clarineta, saxofone. Quero ler muitos livros, completar as obras de Miller e Sartre - haverá tempo na vida pra O Ser e o Nada? -, começar Hemingway e Paulo Coelho. Não, Paulo Coelho, não. Quero reler alguns livros, mas como, se não há tempo nem pros novos? Quero assistir, de novo, a filmes menores, mas bons: Antes do Amanhecer, Para o Resto de Nossas Vidas, Henry e June.

Há tempo na vida de um homem de 30 pra tudo isso? Sobretudo antes dos 35? É, porque se depois disso estará tudo bem, quem se preocuparia com complicadas coisas novas?

Implante pra calvície, lipoaspiração e cirurgia plástica pra barriga de cerveja, viagra praquilo-que-comigo-nunca-acontece-eu-sou-é-macho-aê. Haverá com o que um moderno homem de 30 deva se preocupar? (Ah, e cidades sempre com mais mulheres que homens).

Senhoras, senhores, senhoritas - especialmente senhoritas: esse novo homem de 30 ainda tem quatro anos e 364 dias pra atingir a idade da razão. Até lá, tudo é permitido.

Sou um homem de 30 sob nova direção. Ou melhor: sem direção nenhuma. Amanhã vou pensar no que fazer. Amanhã não, só depois de amanhã.

(*) Essa crônica foi escrita e publicada no dia 6 de janeiro de 2004. Essa nova publicação é uma homenagem a uma grande amiga, que hoje chega aos 3.0 (ela vai querer me matar). O curioso é que faltam apenas cinco meses pra que eu chegue nessa tal idade (35) e relendo o que escrevi há mais de quatro anos vejo que alguma coisa mudou. Mas só comento isso no dia 6 de janeiro do ano que vem, quando serei um homem de meia idade.


 

Questiúnculas e quinquilharias

Vegetarianos usam sapato de couro?


 

A Gazeta e os tais princípios éticos

Na edição deste domingo a Gazeta do Povo lançou as "normas editoriais que serão rigorosamente seguidas ao longo de todo o processo eleitoral". Chama a atenção, especialmente, a norma número 6, que diz:

"Jornalistas da Gazeta, que já têm como regra a exclusividade no trabalho, não poderão trabalhar em campanhas eleitorais sob nenhuma hipótese."

Ah, então, tá.


 

Pequenas histórias de meia vida inteira (1) - Papai Noel*

Não me lembro o carro, talvez um Fiat 147 ou um Fusca comportado. Mas eu estava no banco da frente e sem cinto. Também não sei pra onde íamos, talvez não importasse. Naquele dia em que algo de muito ruim deve ter acontecido, minha mãe abandonou toda e qualquer sutileza e, num ataque de fúria - porque só assim se explica tamanha crueldade -, revelou: "Papai Noel não existe menino, deixa de ser bobo". A minha decepção - surpresa, susto - foi tão grande que ainda hoje trago comigo uma tristeza latente. O dia em que deixei de acreditar que Papai Noel existe. O dia em que deixei de acreditar...

(*) Publicado originalmente em dezembro de 2005


 

A imprenÇa lá e cá, como sempre

Devo admitir: nunca gostei da coluna de Ruth Bolognese na Folha de Londrina - talvez o primeiro jornal que aprendi a admirar, na época em que era o princial do Paraná, dirigido por João Milanez. Não se trata, ainda, de espírito de corpo, até porque cada vez mais me identifico menos com o jornalismo. Mas, faça-me o favor. Achei que situações como essa, da demissão da colunista, só ocorressem em terras mais remotas, como meu querido Goiás, onde vivi dez anos e descobri que a imprensa nada mais faz do que bajular o governo de plantão. Engano meu, como outros tantos. É tudo igualim qui nem. Há de chegar o tempo em que terei o prazer de levantar, curtir o meu dia e ir dormir sem ter lido, visto e ouvido uma única notícia. Aí, sim, serei feliz. Abaixo, segue a carta de Ruth a Zé, pescada do blog do Zé Beto.

CARTA ABERTA AO DIRETOR DA FOLHA DE LONDRINA, JOSÉ EDUARDO ANDRADE VIEIRA

Meu caro amigo,

Parece que nosso destino é nos despedirmos sempre. Só que esta não é uma cerimônia de adeus e, sim, de agradecimento.Saio em definitivo da “Folha de Londrina” e tenho como motivo formal uma reclamação do vice-presidente do Tribunal de Contas do Paraná, Caio Soares, sobre nota publicada na semana passada. É motivo fútil, que dispensa olhar mais apurado, mas de certa forma, expõe a essência do meu trabalho nestes quase 5 anos de coluna diária: escrevo como se tivesse um leitor atrás de mim, cobrando a informação completa,pura,absoluta. Eis aí o fio da navalha que venho percorrendo. E, neste contexto, vale tudo, até expor agora a imensa tristeza de ter que deixar a “Folha”. Dói como as dores definitivas alojadas num coração de mais de meio século.

Em troca da liberdade de escrever, deixo como testemunho pessoal, para efeito jurídico se necessário, que respondo integralmente pelas informações publicadas, desde a primeira coluna até quinta-feira, 24 de julho, quando saiu a última.Meu maior patrimônio, o de ousar contar, é justamente o que me afasta do jornal, porque nem sempre a verdade vem com selo de comprovação. Ao contrário, quanto mais reveladora, mais escamoteada. Os erros cometidos, sempre os corrigi na mesma proporção. Por isso, receber intimações judiciais, depor em tribunais, sofrer condenações são preços baixos demais diante da única oportunidade que tive na vida de exercer meu ofício plenamente. Fazer a coluna nunca foi trabalho, Dr. Zé Eduardo, foi felicidade de dar pulinhos.Eis aí o agradecimento que lhe devo.

De imediato, preciso sair em busca de outros ofícios porque meus doentes e minhas crianças demandam afetos e recursos. E, no Brasil de agora, só os apaziguados do poder, e os corruptos, conseguem ganhar o pão sem suar o rosto. O resto, rala.

Além da minha amizade, sempre intacta, o meu abraço mais fraterno,

Ruth Bolognese


 

Favorito de quem?

Trecho das notas políticas da Gazeta do Povo de hoje: "Em São Paulo, Marta Suplicy (PT) aparece na frente do favorito Geraldo Alckmin (PSDB)" (o grifo é meu). Não entendi: se Marta está na frente, a favorita não seria ela? Hummm...


 

CRÔNICA DE DOMINGO (4) - Quando penso em seguir em frente*

Há um rapaz estranho em Goiânia. Porque achamos estranho quem não é como a gente. Quase todo mundo sabe de quem se trata mas duvido que alguém o conheça de verdade.

É relativamente fácil encontrá-lo. Está sempre, talvez todos os dias, fazendo cooper no acostamento da BR-153, aquela que liga o Brasil de norte a sul.

Não há nada de errado em se fazer exercícios físicos. Dizem os especialistas que faz bem à saúde, ao coração e aos fabricantes de calçados. Aconselham apenas cuidado na escolha do horário: início da manhã, final de tarde.

O nosso corredor, eufemisticamente desgrenhado, mal calçado, às vezes sem camisa, tem uma peculiaridade que o diferencia de todos os outros esportistas: corre de costas. Nosso quase mendigo, talvez quase louco, possivelmente quase normal, usa o perigoso acostamento da rodovia pra sua corrida, talvez diária, de marcha a ré. E sem olhar pra trás - ou pra frente.

Onde quer chegar nosso amigo? É a pergunta que me faço sempre que o vejo, como hoje. (Ele não toma os cuidados aconselhados pelos especialistas. Eram duas horas da tarde, sob pleno sol do cerrado). Estaria fugindo do que o espera?

Alheio às perguntas e à curiosidade dos motoristas que rompem, apressados, o trecho urbano da BR-153, ele segue sempre em frente - ou pra trás. Mãos, braços em movimento ritmado, largados pra trás, como que tateando o caminho que ele não vê. Há os que não podem enxergar. Ele optou por não ver.

Pro atleta solitário as coisas nunca estão se aproximando. Tudo vai ficando distante. Ele não espera nada, apenas se despede. A fome que passou ontem ficou lá atrás, em frente ao estádio. Na curva do shopping descansa a última indiferença. Derrapa na pista molhada a vida que não existiu.

Aquelas mãos jogadas pra trás, em compasso binário, ditam o ritmo cadenciado da corrida. Corrida a favor e não contra o tempo. Há pressa nesse caminho?

Os carros passam pro serviço, pra escola, pra São Paulo, pra Belém. Ele permanece indiferente, sempre o mesmo ritmo. Não há preferência no sentido. Mas há que se lembrar: ele sempre segue pra onde nunca chega.

Um dia vou perguntar ao nosso homem o motivo de correr pra trás. Caminharia ele assim também? O que me responderia o atleta às avessas? Diria que correr pra trás é melhor do que seguir adiante e não chegar a lugar algum?

Eu, que sempre pensei ter andado pra frente, pergunto-me se, assim como nosso amigo, não tenha sempre corrido pra trás.

(*) Publicado originalmente em abril de 2005


 

O herói-vilão Uribe

Ídolo de alguns, o presidente colombiano Alvaro Uribe - aquele que quer um terceiro mandado e "pode, porque é um bom presidente", segundo meu amigo Briguet - mais uma vez demonstra seu desrespeito pelos demais países latino-americanos e instituições internacionais. Depois de invadir o Equador, agora admite que seus soldados usaram símbolos da Cruz Vermelha durante o resgate de Ingrid Betancourt. Além de crime de guerra, um risco, a partir de agora e durante um bom tempo, pra todos os funcionários de organizações humanitárias. Mas, tudo bem: "Uribe, pode".


 

Esse é o Brasil de hoje, de ontem, de sempre

Da Folha de S.Paulo:

Habeas corpus é negado a réu de furto a Mendes
KAMILA FERNANDES
DA AGÊNCIA FOLHA, EM FORTALEZA


Preso há 18 dias por tentar roubar um cordão de ouro do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, em Fortaleza, Jéferson Hermínio Coelho Monteiro, 18, não conseguiu obter da Justiça um habeas corpus, o mesmo benefício que foi concedido duas vezes pelo ministro ao banqueiro Daniel Dantas.
Sem antecedentes criminais e com residência fixa, Monteiro conseguiu um parecer do Ministério Público Estadual favorável a que ele responda ao processo em liberdade, o que foi negado depois pelo juiz Eduardo de Castro Neto, da 6ª Vara Criminal. O magistrado afirmou que, ainda que seja réu primário, o ato que Monteiro praticou é grave.
A tentativa de furto aconteceu na manhã do dia 29 de junho. Desarmado, Monteiro tentou puxar o cordão do ministro às pressas, mas logo foi pego pelos seguranças.
No dia seguinte à prisão, o advogado do acusado, Antônio Valdônio de Oliveira Brito, entrou com um pedido de liberdade provisória. Agora, Brito disse que vai pedir que o juiz reconsidere a decisão, por erros no processo.



 

Cruzes! A Veja descobriu: sou liberal

Tenho estado bastante afastado das discussões e leituras virtuais, portanto, me perdoem se o assunto não é novidade por aqui. Mas, pra quem quiser saber se é Briguet ou Marcião, pode fazer o teste do Politicômetro da Veja. No meu caso, descobri que sou "liberal de esquerda: Acredita que o estado deve intervir em alguns setores da economia, mas defende que não existam restrições às liberdades individuais". É isso. Desta vez, a Veja acertou.

Faça o teste você também, clicando aqui.


 

Curitibanos preferem aborto a casamento gay

Amigos e colegas jornalistas sabem que há várias maneiras de se publicar uma manchete. Na Gazeta do Povo de ontem, o título de uma reportagem é o seguinte: "Curitibanos são contra o aborto e o casamento gay". Manchete parcialmente correta por sintetizar o texto da matéria e o resultado da pesquisa que a motivou, sem, contudo, apontar a idéia geral do texto, que revela um número considerável de pessoas que pensam diferente. Mas se eu trabalhasse em um veículo de comunicação com linha editorial antigay, poderia dar outra interpretação para essa mesma manchete, e demonstrar como "é grave" ser gay. Ou, o contrário: poderia criticar o fato de os gays ainda serem tão discriminados, já que o casamento entre eles tem maior rejeição que o aborto.

Para mim está claro que todos os segmentos da sociedade utilizam uma mesma informação da maneira que melhor lhe convier. A imprensa, no caso, precisa vender jornais, revistas, precisa de audiência no rádio, TV e internet. Portanto, manchetes mais impactantes significam melhores resultados com o público.

O problema é quando a imprensa, no intuito de conquistar público, referenda as opiniões da sociedade – "A opinião pública é uma tia velha, pronta pra opinar sobre tudo", disse Franklin Martins, em uma palestra, antes de virar ministro - sem promover a discussão, em nível elevado, para que o assunto em questão seja realmente debatido e não apenas tido como verdade absoluta, ainda quando verdade da maioria.

Particularmente, sou absolutamente individualista quando se trata de direitos. Portanto, não me faz nenhuma diferença se gays ou heteros são "casados" no papel, na igreja ou vivem juntos na mesma casa. Também não sou a favor do aborto – e creio que ninguém é – mas defendo o direito de cada um decidir sobre a sua vida, sem interferências da sociedade.

O Brasil vai começar a melhorar assim que se tornar um pouco menos hipócrita. E cada um começar a cuidar de sua própria vida.

PS: Isso aqui está às moscas, é verdade. Mas não será sempre assim. Eu acho.


 

CRÔNICA DE DOMINGO (3) - Ele acordou diferente*

Sem saber exatamente por que, ele acordou diferente naquela sexta-feira. O dia amanheceu escuro, melancólico, de chuva fina. Tudo parecia que fazia muito tempo. Banho demorado. Decidiu não fazer a barba. Vestiu os mesmos paletó e gravata de ontem. Um tablete de chocolate, dois comprimidos.

Na rodovia, até a TV, alta velocidade. Viagem perigosa, arriscada. Queria que as coisas passassem mais rápido, o dia, a vida.

Sem bom dia, a recepcionista estranhou. Carro de novo. Entrevistas estúpidas, gente patética.

O homem sem pernas e mãos atrofiadas pedia esmolas na esquina. Uma capa de chuva cobria o meio corpo que à noite, apenas à noite, seria buscado na cadeira de rodas e levado sabe-se lá pra onde na velha Brasília. “Por que esse desgraçado não morre, meu Deus?”.

À tarde, no Aromatic Café, leu somente as páginas policiais dos jornais. A fonoaudióloga foi estuprada e assassinada a golpes de faca. O aposentado teve parada cardíaca e o pescoço degolado. A polícia culpou o cachorro da vítima. O músico famoso atropelado enquanto fazia Cooper. Coma profundo. Café expresso.

Cuba libre de cachaça no boteco. O Primo era uma espelunca sem run. Copos sempre sujos, cuba libre falsificada. A menininha sem futuro veio pedir um autógrafo – “ela te conhece da tv”, a mãe, meio sem graça. Churrasquinho de 70 centavos. Pagou um ao mendigo. O casal na mesa ao lado brigava por causa da pintura da casa. Cuba libre.

Em casa, Sartre, impotência. Voltou a chover, tudo fazia muito tempo. As brigas na infância, os amigos perdidos – “meu Deus, aonde andará aquela garota...?”

As nuvens baixas refletem as luzes da avenida, céu meio alaranjado. O vento muda de direção, a chuva respinga na sacada. Os anos voam, décadas. O tablete de chocolate e os comprimidos haviam sido há muito, muito tempo. Não fazia mais sentido. Era o 12° andar, o céu continuava claro, parecia mais perto. Garoa gelada e vento agradável. Parapeito.

(*) Publicado anteriormente no Mimeographo, em 6/10/2005


 

CRÔNICA DE DOMINGO (2) - Samambaia de Alice

Era um comprimidinho tão pequeno que eu nunca tinha certeza se tinha engolido ou se ele havia ficado preso num buraco do dente ou até mesmo seguido pelo canal respiratório. O fato é que o comprimidinho me fazia ver cachoeiras e samambaias verdes quando tentava pensar no problema.

Aquilo que você sente quando está no ponto mais alto da montanha russa e o carrinho começa a descer, sabe como é? Quando seu time vai bater um pênalti aos 47 do segundo tempo, na final do campeonato? Nessas horas é bom, o frio na barriga, o coração disparado. Mas sentir isso todo dia, o dia todo, é pura insanidade, dor no coração.

O comprimidinho era assim, pra você dormir quando quisesse, e eu sempre gostei de dormir. Mas dormir à 1h da manhã e acordar três horas depois, aquele escuro, aquele domingo, aquele nada a fazer nem pra onde ir, você imagina, não é qualquer um que agüenta, não.

Eu não sou de comer muito, não, café da manhã só de vez em quando, porque eu gosto de dormir até tarde, almoço, 500 gramas, jantar, nunca, só sanduíche ou macarrão instantâneo. Mas o dia inteiro sem nada e depois aqueles únicos 240 gramas que insistiam em permanecer no prato e não desciam, mas não desciam mesmo, isso não é pra qualquer um, não.

Um comprimidinho à noite, um de manhã. À noite, pra você dormir. De manhã, pra não pensar no problema, pra pensar em samambaias psicodélicas e cachoeiras maravilhosas do país de Alice. Mas aquele sono... e o serviço a fazer, rápido, em cima da hora.

A cabeça não gira, não, só vê samambaias verdes e cachoeiras barulhentas. Mas o Mundo, ah, o Mundo... esse gira sempre. Eternamente em volta de seu próprio eixo e de sua estrela maior.

OBS: Publicado originalmente em agosto de 2003


 

CRÔNICA DE DOMINGO (1) - Equilíbrio ferido

Seguir em frente sem saber, até o instante fatal, o tempo que te fora reservado e que ocupaste em questionar.

Se alguém mais fraco cair ou se distrair à sua frente, pisa, passa por cima ou deixa que te seja reservada a mesma sorte.

Teu destino é construído dia-a-dia, com decisões egoístas, atos estúpidos e falsa compaixão.

E que outro motivo haveria pra estares aqui, se não fosse o lamento doído e diário?

Pois se não passas de átomos de carbono caoticamente organizados, pele ressequida, sangue que não explica o vermelho escuro?

Os golpes que desferes são plumas ante os que recebes. E tropeças e levantas e perdes os sentidos...

Falas em diversas línguas, mas não encontras uma única palavra pra exprimir o desgosto de ontem, de hoje.

Encontras abrigo no calor-marrom, no cheiro-doce, no toque-veludo. Mas feres o equilíbrio dissimulando o horror.


 

PROPAGANDAS LEGAIS (1) - Rexona Sportfan

Eu sempre quis colecionar propagandas legais. Agora o You Tube faz isso pra gente.



 
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